O governo do presidente americano Donald Trump anunciou na semana passada uma tarifa adicional de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros, na sequência de uma investigação comercial iniciada em julho do ano passado pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). As tarifas entraram em vigor em 22 de julho.
A investigação do USTR acusa fraudulentamente o governo do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores – PT) de práticas comerciais desleais. As novas tarifas possuem um caráter abertamente político.
Elas adicionam uma nova camada às tarifas de 50% impostas sobre o Brasil há exatamente um ano, que tiveram o objetivo de pressionar o Supremo Tribunal Federal a reverter a condenação iminente do ex-presidente fascista Jair Bolsonaro, um aliado próximo de Trump que foi condenado em setembro passado pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, inspirada no golpe fracassado de Trump no Capitólio dos EUA dois anos antes.
O governo Trump pretende, no contexto do corolário de Trump à “Doutrina Monroe” e ao “Escudo das Américas”, instalar governos alinhados com seu objetivo de transformar a América Latina em um protetorado neocolonial dos EUA e impor um regime autoritário em toda a região — um processo que já está em andamento nos próprios Estados Unidos. No Brasil, em particular, o governo Trump busca interferir nas eleições de outubro para garantir a vitória de Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, que, segundo as pesquisas de opinião, está em empate técnico com Lula.
Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China. Essa estreita relação comercial levou o governo Trump — já atolado em uma crise cada vez mais profunda às vésperas das eleições de meio de mandato e sob pressão para conter o impacto inflacionário de sua guerra contra o Irã — a isentar três quartos das exportações brasileiras da nova tarifa de 25%. Entre elas estão o café, a carne bovina, o suco de laranja e certos insumos industriais. Mesmo assim, o Brasil enfrenta agora a segunda maior alíquota média de tarifa sobre as exportações para os EUA, de 14,42% — atrás apenas dos 21,5% aplicados aos produtos chineses.
Com base na investigação do USTR, Washington alegou que o Brasil prejudica as empresas americanas de pagamentos eletrônicos ao promover o PIX, o sistema de pagamentos gratuito amplamente utilizado no país, e que o Supremo Tribunal Federal — por meio do ministro Alexandre de Moraes, o juiz que supervisionou a condenação de Bolsonaro — censurou ilegalmente as plataformas americanas de redes sociais.
O relatório do USTR citou ainda supostas irregularidades na tributação brasileira do etanol americano, tarifas brasileiras sobre produtos mexicanos e indianos que supostamente prejudicam indiretamente os interesses dos EUA e supostas falhas no combate à corrupção, à pirataria e ao desmatamento ilegal.
O governo brasileiro repudiou as novas tarifas, escrevendo em nota que “O dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável.” Apontando para o superávit dos EUA de bens e serviços com o Brasil, a nota denunciou que “Não há justificativa para medidas unilaterais contra o nosso país.” A nota concluiu que novas tarifas fazem “parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro. São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros.”
As novas tarifas foram anunciadas pelo secretário de Estado Marco Rubio, a quem Trump encarregou de conduzir a campanha de pressão de Washington contra o Brasil e, de forma mais ampla, de implementar seu corolário à Doutrina Monroe em toda a região. Rubio cultivou laços estreitos com a família Bolsonaro — tendo se encontrado com Flávio em Washington em maio — e já havia denunciado Lula como um “radical antiamericano” que se curva ao “regime genocida da China”. Em 15 de junho, Rubio postou no X:
Que não haja dúvidas sobre o motivo: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé.
Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. Ao longo do último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de um acordo em prol do bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço a pagar por isso.
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, respondeu em 16 de junho, afirmando que as declarações de Rubio “são inaceitáveis e ofensivas ao povo brasileiro e ao governo brasileiro”, que “ataca de forma grosseira e arrogante o Chefe de Estado de um país amigo”. Ele continuou:
Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações.
Cito, como exemplo, demandas de abertura total, irrestrita e exclusiva aos Estados Unidos de setores inteiros da economia brasileira, sem qualquer contrapartida para os produtos brasileiros.
Em outras palavras, exigiam uma capitulação.
Esclarecendo o que estaria por trás dessa “capitulação”, o jornalista Jamil Chade escreveu em 17 de julho no ICL Notícias que “O governo de Donald Trump exigiu que o Brasil barrasse investimentos chineses no setor de terras raras e minérios, além de abrir de forma plena o mercado nacional para bens americanos, como forma de negociar uma eventual redução nas tarifas que poderiam impor sobre o Brasil.” Entre esses bens estariam o etanol americano e bens industriais químicos e automotivos, além de exigir que os americanos fossem consultados sobre as políticas digitais implementadas no Brasil.
A candidatura de Flávio Bolsonaro e o espectro de uma nova tentativa de golpe no Brasil
Desde a posse de Trump, em janeiro de 2025, membros da família Bolsonaro têm trabalhado em estreita colaboração com figuras fascistas dentro e ao redor do governo Trump para pressionar o governo brasileiro — por meio da imposição de tarifas punitivas, da designação do PCC e do Comando Vermelho como “organizações terroristas” e, agora, da interferência aberta na eleição presidencial brasileira em favor de Flávio.
Na sexta viagem que Flávio fez aos EUA neste ano, ele participou no início de julho de uma audiência pública no USTR sobre a investigação contra o Brasil. Numa live explicando sua intervenção na audiência, ele disse que foi aos EUA “proteger o Brasil das tarifas e também do Lula … que a todo momento ataca os Estados Unidos, faz questão de dizer que é antiamericano [e] lambe as botas da China”.
Na live, ele também defendeu a criação de uma zona de livre comércio com os EUA, dizendo: “Ao invés do antigo NAFTA [North American Free Trade Agreement], a gente pode cortar essa letrinha ‘N’ e passar a usar o AFTA, o Acordo de Livre Comércio das Américas, onde o Brasil pode sim se incluir. As nossas economias, EUA e Brasil, são complementares. A gente tem uma avenida de oportunidade para trazer investimentos americanos para cá.”
Após o anúncio das novas tarifas, Flávio amplificou a declaração de Rubio no X, escrevendo: “Lula não tem mais condições de ser o presidente do Brasil. Estamos num avião sem piloto. O Biden brasileiro está ranzinza, inconsequente e se tornou um perigo para a nossa nação.”
A referência a Biden não é por acaso. Kamala Harris, a sucessora escolhida por Biden em 2024, perdeu a eleição presidencial para Trump após receber o apoio aberto de Lula e de dirigentes do PT. Em março, ao discursar na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) nos Estados Unidos, Flávio acusou o governo Biden de ter interferido na eleição presidencial brasileira de 2022 para “instalar um socialista que odeia a América”.
Antes das eleições de 2022, o então candidato Lula e dirigentes do PT realizaram um intenso trabalho político de bastidor junto ao governo Biden, buscando garantir seu apoio público ao sistema de votação eletrônica do Brasil e à legitimidade do resultado eleitoral. O ataque contínuo de Bolsonaro à integridade do sistema de votação eletrônica foi um pilar central de sua estratégia política, que culminou na tentativa de golpe fascista de 8 de janeiro de 2023.
Hoje, Flávio está seguindo diretamente os passos de seu pai, retomando a mesma narrativa de fraude eleitoral que Bolsonaro utilizou em 2022 — e que o próprio Trump repetiu na semana passada com novos ataques à integridade do sistema eleitoral dos EUA.
Em uma reunião com embaixadores na terça-feira, Flávio alegou que muitas das urnas eletrônicas do Brasil “têm a mesma origem” da Smartmatic “têm a mesma origem que aquela empresa venezuelana”, referindo-se à Smartmatic, citada em relatórios de inteligência dos EUA em conexão com supostas fraudes eleitorais na Venezuela.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do Brasil rejeitou prontamente essas falsas alegações. As urnas eletrônicas brasileiras foram projetadas e desenvolvidas por servidores públicos e técnicos do órgão eleitoral do país.
Apesar de alegar cinicamente que não estava questionando o sistema de votação brasileiro, ele pediu que “todos os países possam mandar a maior quantidade de observadores possíveis para as nossas eleições, como sempre fazem, e também pessoas que tenham conhecimento sobre essa tecnologia e como o Brasil pode dar ter eleições mais seguras e transparentes.”
Com Trump na Casa Branca, em vez de Biden, no entanto, o resultado poderá ser bem diferente. Em entrevista à Folha de S. Paulo no último sábado, Anthony W. Pereira, professor de ciências políticas da Universidade de Tulane (EUA), explicou melhor a ameaça:
Vamos supor que o resultado [da eleição presidencial de outubro] seja tão estreito como em 2022, e provavelmente vai ser. Se Flávio não aceitar o resultado e, em conjunto, o governo Trump [falar] “não aceitamos essa eleição”, isso poderia criar uma situação caótica aqui… é possível que alguns funcionários do governo proponham esse tipo de interferência. Se esse tipo de crise for prolongada sem um resultado concreto, pode gerar incentivo para intervenção das Forças Armadas ou talvez pressão para refazer eleições, algo sem precedentes nas últimas décadas da democracia brasileira.
Menos de quatro anos após a tentativa de golpe fascista de 8 de janeiro de 2023, e com Trump avançando rápida e abertamente no sentido de estabelecer uma ditadura nos Estados Unidos, a ameaça de um novo golpe é muito real e deve soar um alarme para a classe trabalhadora no Brasil, na América Latina como um todo e internacionalmente. A classe trabalhadora, no entanto, não pode delegar sua defesa contra a ameaça da ditadura ao PT, nem a qualquer facção da burguesia brasileira — nem aos democratas nos EUA, nem a representantes de outras potências imperialistas que possam estar mais diplomaticamente alinhados com o governo Lula.
Na mesma nota em que condenava as novas tarifas — na qual classificou Flávio e a família Bolsonaro como “falsos patriotas” —, o governo Lula afirmou que que “Proteger a nossa soberania é uma obrigação que está acima de todos os partidos e todas as tendências.”
Ao longo do último ano e meio, Lula e o PT responderam à ofensiva imperialista de Washington minimizando sistematicamente as ameaças dos EUA e capitulando a cada passo. Ao mesmo tempo, o governo Lula vem aprofundando a austeridade e ampliando drasticamente os gastos militares. Essa trajetória deixa à mostra o caráter de classe do PT: um partido da burguesia brasileira que administra o capitalismo e não pode romper com o imperialismo dos EUA sem comprometer os interesses do capital nacional que representa.
Nesse último um ano e meio de governo Trump, a resposta de Lula e do PT à ofensiva imperialista americana têm sido o encobrimento da ameaça representada pelo candidato a ditador dos EUA e a consequente capitulação. Ao mesmo tempo, o governo Lula aprofunda a austeridade e eleva os gastos militares. Essa postura revela o caráter de classe do PT: um partido da burguesia brasileira que administra o capitalismo e que não pode romper com o imperialismo americano sem colocar em risco os interesses do capital nacional que representa.
Como o WSWS tem insistido, as tarifas de Trump não são, em primeiro lugar, uma arma comercial, mas sim um instrumento de política militarista. Elas representam uma das frentes de uma guerra mundial em desenvolvimento que visa reverter, por meios militares, a erosão da hegemonia dos EUA impulsionada pela ascensão da China nas últimas décadas. Para isso, o governo Trump busca instalar ditaduras brutais em toda a América Latina.
A única resposta coerente a essa ofensiva é a mobilização política independente da classe trabalhadora no Brasil, em toda a América Latina e internacionalmente. Isso exige uma ruptura decisiva com o PT e seus aliados da pseudoesquerda, bem como a construção de uma luta internacional unificada pelo socialismo ao lado dos trabalhadores nos Estados Unidos que se opõem à agenda fascista de Trump e Rubio.
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